Arquivos Mensais:maio 2008

Briga com meu corpo

Ontem a noite tive uma briga homérica comigo mesmo. Me joguei prum lado, me joguei pra outro, parecia filme americano com efeitos especiais.

Tinha uma lágrima atrás dos meus olhos que não saia de jeito nenhum, fechava o olho, piscava, gritava, nada.

- Lágrima filha da puta, me faz chorar senão eu acabo com tua raça!

Eu disse, mas não adiantou… Tive que apelar, peguei uma taça de vinho, bebi num gole só, misturei com toda emoção que tinha no fundo do copo, mas nada…

Meu corpo teimava em ficar nessa, nesse estado meio neutro, meio mecânico, igual aquele que o carro exige da gente quando a gente vem correndo tarde da noite.

Peguei um livro do Leminski, começei a ler pra ver se chorava, mas nada! O filha da puta dentro de mim revidou, e quando vi já tava lendo uns poemas do Edson Marques. Dei-lhe uma de direita e coloquei Strawberry Fields no ouvido esquerdo. Quando fui dar conta, tava cantando Helter Skelter.

Saí correndo, começei a uivar com meu cachorro para Lua, e a danada me pinga uma estrela nos olhos, e eu, puto da vida que tava, desci mais uma taça de vinho.

Fiz careta, acendi incenso, liguei abajour, tomei mais vinho, escrevi dois versos, três vernáculos, quatro estrofres, cinco refrãos.

A lágrima começou a sair, mas não deu nem pro começo, voltou pra dentro do olho, igual a caranguejo quando anda de lado e a gente não sabe por que.

Passei a noite inteira assim, até frase errada eu citei, mas nada.

Minha alma insiste em ser feliz.

Feed on

Apague todas as luzes, desligue todos os abajoures
Acenda todos os vagalumes, peça para a Lua ficar um pouco mais perto
Acabe com todos os perfumes
Jogue fora todas as certezas e convicções
Abra a porta e estenda o tapete para o inexplicável
Desligue o celular
Esconda, bem longe, as contas de banco
Finja que o mundo é inteiro seu
(pelo menos por essa noite)
Grite
Grite mais forte

O mundo não tem tempo para ficar te esperando

Finalmente hoje é que você vai poder ser você

Entrevista com Frank Zappa em 1983

A etapa em que todo compositor é obrigado a lidar com a mecânica do mundo do espetáculo, especialmente como este se caracteriza na sociedade americana, tem necessiariamente um impacto importante naquilo que se compõe. Por exemplo, uma das minhas teorias preferidas é a de que a principal causa do minimalismo são os orçamentos reduzidos para ensaios e os orçamentos reduzidos para conjuntos. Se um cara quer compor algo e sabe que vai dispor de apenas alguns minutos para os ensaios, ele certamente não vai fazer uma vasta obra para orquestra. Não há incentivo para isso porque ela nunca será ensaiada nem executada. Como uma pessoa pode se preocupar com tonalidade ou atonalidade, quando a única questão relevante é saber como fazer para que sua obra, seja ela qual for, seja executada?

Esse é o único modo pelo qual um compositor pode atuar na vida americana contemporânea, produzindo coisas superficiais, vazias, repetitivas e descartáveis; em seguida eles confirmam ou racionalizam isso dizendo que a sociedade é assim e que nós pobres compositores podemos apenas refletir o que ocorre na sociedade.

 

Nenhuma tendência de rock se firmou sem que fosse capaz de propor uma nova maneira de se vestir

 

Quando surge um novo grupo, é preciso, para que ele seja realmente um mega-sucesso, um mega grupo, que exista um modo de se imitar ou o corte de seus cabelos ou as suas roupas. Isso não tem nada a ver com música. Esse é o lado mercadológico da coisa. Nenhuma companhia investe pesadamente na divulgação de um grupo apenas porque ele canta bem, toca bem e compõe boas letras. A grana só vai para o grupo quando alguém em um escritório fareja a possibilidade de esquemas de promição e publicidade em um conjunto com fábricas de refrigerantes ou bebidas alcoólicas.

 

Mas um dos motivos pelos quais essas companhias precisam se vincular a cultura pop é que elas precisam de uma razão para existir… por isso procuram se identificar com tudo o que é contemporâneo

 

Não há possibilidade de reproduzir, no palco, a atmosfera desses chamados “vídeos conceituais”. No fundo, ainda é sempre um grupo e alguns amplificadores, a menos que você gaste um monte de dinheiro em cenários. As pessoas empenhadas nessa espécie de prática comercial – criar produtos de áudio para venda e em seguida divulgá-los por meio de réplicas que tão semelhante ao original quanto possível – não tem o menor pudor de subir no palco e dublar a própria voz gravada.

 

É dificil apresentar uma música nova no palco. Suponha que você seja um compositor desconhecido, e tenha uma idéia revolucionária. O que você vai fazer com ela?

 

No fim, todo mundo tem essa trabalheira enorme em função de um público que não está lá. Um público que, na verdade, preferia ver Vanilla Ice.

 

Não acredito que o rap pudesse existir sem duas ou três décadas de condicionamento através de comerciais.

 

A habilidade dos publicitários para convencer as pessoas aumenta proporcionalmente à deteriorização do sistema educacional.

 

Revista NOVOS ESTUDOS CEBRAP nº 32

Artenacara

viver
não é pra qualquer um
um errinho qualquer
buuuummmmm
a vida explode
na cara
poeta vive
vive
vive
e quando cansa
sobre
vive
difícil é
escrever poemas
e continuar em pé
tanta fala
tanto assunto
tanto olhar
e quando vê
já tá perdido
poeta que é poeta
entra no fogo sem se queimar
entra no mar sem se molhar
entra na obviedade sem se banalizar