Gal Costa~

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Essa tua mania de me ouvir falar sobre música

Esse teu jeito de pedir para não te elogiar, quando tudo que quer é ouvir minha voz falando que tu é

Esse teu jeito de me elogiar e fingir que eu já sabia
- mas eu nunca soube

Esse teu jeito de me acompanhar
me deixar sem palavras
quando tudo que eu queria era gritar

Esse teu tênis sujo
mal amarrado
mal acostumado a andar longe do meu
desamarrando toda hora
querendo cadarçar no meu cadarço
querendo fugir do teu pé
e ficar no chão do meu quarto

Esse meu cachecol
querendo amarrar em você
guardar teu cheiro
querendo tua metade
só pra mostrar pros outros cachecois
dentro do armário
o que é cheiro de verdade

Queria entrar no teu mundo
pra te ensinar a fazer um pouco mais pra baixo a pestana
enquadrar melhor teu jeito
e fingir que sou teu diretor
só pra tu me ouvir mais e mais
e cantar pra mim

E meu medo de tu dizer que não vai ter mais jeito
que pareceu perfeito
mas não foi
não é

pois é
só queria saber se vai dar jogo
se posso colocar a faixa de capitão
se posso pedir platéia
se posso te dar a bola
se posso ligar na globo

Eu não sei ser o que tu quer
preciso de autotune
preciso afinar em outro tom
preciso de outra roupa, outro jeito, outro conceito

Lavei meu travesseiro pra tirar teu cheiro
pois não conseguia mais dormir

tu deu dois passos
e sumiu

teu brilho

pisei no teu pé
como se fosse a última vez
não sei dançar
já falei

puxei teu braço
como se fosse o último abraço
e vi teu cangote
na minha boca mais uma vez

te pedi para não me entender
pois eu mesmo estava perdido
pedindo a tua contra-mão

te pedi para não se estender
pois não sabia qual a saída
perdido em outra direção

pedi teu brilho
e não soube me acender

postalsaudebg- gosto de ti
- mentira
- verdade…
- mas não pode
- como assim, não pode?
- você mal me conhece
- e precisa de mais? pois se precisar, ferrou.
- não sei se vai dar
- me avisa, pois já marco consulta no cardiologista
- é que eu tenho medo
- de mim?
- de tudo. essa beleza não me pertence
- poderia me pertencer, né?
- não é assim
- poderia ser. não sei ser de outro jeito
- não me testa
- a ti não, isso é um teste para mim
- como assim
- deixa
- deixo

Todas as esquinas

“Mas essas tuas histórias são todas reais?”

Sim, todas. Cada história minha tem endereço, cor de lençol, tapete na entrada. Me machuquei muito em algum desses tapetes. Caí muito de algum desses colchões.

Mas coração sem ferida só serve para aula de medicina.

Lembrei hoje de quando conheci a música. Ouvia Beatles o dia inteiro, faixa a faixa de cada um dos discos… E eu, apaixonado, queria acreditar que não deveria me machucar tanto.

Ouvia She Loves You, com o John cantando “eu a vi ontem, e é em você que ela está pensando”. Colocava no fone de ouvido, alto. Passava.

Me machuco… Em todas as esquinas.

Mas passa.

Sem ter o que falar, abracei.

E esse teu olho, que quer dizer muito mais do que a tua boca quer me dizer?

Deitei no colo dela, perguntei o que estava acontecendo, por que o beijo dela tava gelado.

“Eu não consigo ficar longe de você”, me disse, querendo dizer que precisava ficar longe de mim. E eu, sem entender, pensei em tudo que já tinha dito, todos os abraços, todo o meu suor que já tinha errado de corpo. Perguntei se ela tava terminando comigo, e ela disse que sim.

“Terminando o que a gente nunca começou”, concluiu, querendo dizer o que eu já tinha entendido. Eu perguntei se já tinha a tratado mal, ela respondeu que esse era o problema, que eu a tratava como a melhor mulher do mundo. Não consegui me conter e saiu meia lágrima, por meio segundo.

Expliquei que ela me ajudou a ver uma porrada de coisas novas, mil maneiras diferentes de ver um mundo que tinha só uma cor.  Mas ela continuou, disse que não poderia continuar, que quando digitava “a” no navegador aparecia meu blog, quando digitava “i” aparecia minhas redes sociais.

Sem ter o que falar, abracei. Ela me deu tchau, desceu do carro e entrou. Eu saí.

Princesa Verana

Era dona de mil terras. Sabia muita coisa, e por saber muita coisa se esqueceu que tinha que decidir.

Era herdeira de um reinado, e até então era só seu, precisava encontrar alguém para ser teu príncipe, dividir a metade da panela, andar juntos no parque.

Também era linda, daqueles que machuca, que Vinícius escreveu no soneto do corifeu. E por ser linda, fazer poemas, saber várias línguas, ter tudo, os pretendentes eram dezenas, centenas, milhares.

Verana, por nunca conseguir decidir, queria ajuda, e pediu para um mago de sua cidade. O mago disse que tinha uma dose de uma fórmula, e ela deveria tomar meia dose, para viver tempo necessário para achar alguém sem se arrepender.

Ela tomou, sabendo que teria tempo o suficiente para achar quem ela procurava. E quando achasse, daria a outra metade, para viverem para a eternidade.

Porém, quanto mais tempo passava mais as opções surgiam, e Verana ficava mais indecisa. E agora sabia que não ia passar apenas uma vida, mas sim toda a eternidade.

Machucava o fato de nunca se decidir.

Lembrou, mais uma vez, do soneto do Corifeu

“que nenhuma mulher seja como a própria lua
tão linda que só cause dor
e tão cheia de pudor que vive nua”.

E cada homem que se apaixona por uma mulher também se apaixona por Verana, que não consegue se decidir e se entregar.